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PROSAS APÁTRIDAS AUMENTADAS– 

Julio Ramon Ribeyro, 1978 – Ver Biografia 

Traduzido do Espanhol por Ana Castro-Corrales 

Março, 24 – 2009

85. A única maneira de comunicar-me com o escritor que há em mim é através do trago solitário. Depois de uns goles, ele aparece. E escuto sua voz, uma voz um pouco monótona, mas contínua, imperiosa, por momentos. Eu a registro e trato de guardá-la, até que vai ficando borrada, desordenada e termina por desaparecer, quando eu mesmo me afogo em um mar de náuseas, de tabaco e de fumaça. Pobre dublé, o meu. A que poço terrível o releguei, que somente posso reve-lo a custa de tanto mal. Fundido em mim como uma semente morta, quem sabe se recorda das épocas felizes em que cohabitávamos, mais ainda, em que éramos o mesmo e não havia distancia que galgar, nem vinho que beber para tene-lo constantemente presente.

 

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Fevereiro, 19 – 2009

84. Há ocasiões nas quais o bar tem um ar sinistro e então as noites se cobrem de uma irremediável tristeza. No balcão os bebados e as putas de costume. A sala do fundo, quase deserta: um casal abraçado, uma velha tomando uma água mineral, um tecnocrata discutindo com um burócrata. Eu e minhas gigondas em meu canto, mirando e esperando. Esperando o que? Isso, o milagre, um encontro fortuito, um sopro de mistério ou de poesia. Mas, nada, No terceiro trago apago meu cigarro e vou saindo, não vencido mas, envergonhado por haver acreditado que ainda vale aguardar neste mundo banal o surgimento do maravilhoso.

 

Fevereiro, 18 – 2009

83. Arte do Relato: Sensibilidade para perceber o significado das coisas. Se eu digo “O homem do bar era um tipo careca” faço uma observação infantil. Mas também poderia dizer:  Todas as calvices são desgraçadas mas, há umas que inspiram uma profunda pena interior. São as calvices obtidas sem glória, fruto da rotina e não do prazer, como a do homem que ontem bebia cerveja no “Violão Cigano” . Ao ve-lo eu dizia:  “em que repartição pública haverá esse cristão perdido seus cabelos?” Por outro lado, quem sabe, a arte de relatar esteja na primeira fórmula.

82. As vezes abro a cortina e lanço um olhar ávido sobre o mundo, o interrogo mas não recebo nenhuma mensagem, exceto de caos e confusão, automóveis que circulam, pedestres que cruzam a praça, lojas que acendem suas luzes, escavadoras que aram um terreno baldio, pássaros perdidos buscando um canto quieto para descansar. São os dias nefastos, nos quais nada podemos produzir, porque nossa consciencia está excessivamente contaminada pe,la razão e nossos olhos carregados de rotina. Limpar a ambos do que lhes atrapalha não é uma tarefa fácil. As vezes consegue-se com um esforço de concentração, outras vezes vem naturalmente, devido a um trabalho interior no qual não participamos deliberadamente. Só então, a realidade entreabre suas portas e podemos vislumbrar o essencial.

 

Fevereiro, 17 – 2008

81. Ao lado do trilho da vida, por onde todos andamos, existe uma via paralela, que só os iluminados eligem. Via expressa, não se detém em nenhuma estação nem  deixa-se tentar pelas delícias da paisagem. Ela leva diretamente ao destino e no prazo mais curto pois, o tempo que a dirige não é o mesmo dos nossos relógios. Quem nunca esteve tentado a segui-la?  Conheci heróis precoces, drogados inclementes, que desprezaram o trilho original por sua pressa desesperada de chegar ou de encontrar a morte.

80. A certa idade, que varia de acordo com as pessoas mas, que se situa perto dos quarenta, a vida começa a parecer-nos sem sal, lenta, estéril, sem atrsativos, repetitiva como se cada dia fosse um plágio do dia anterior. Alguma coisa dentro de nós parece apagadaÇ entusiasmo, energia, capacidade de projetar, espírito de aventura, ou simplesmente apetite para gozar, inventar ou arriscar-se. É o momento de fazer uma parada, reconsiderar-la sob todos seus aspectos e tratar de tirar proveito de suas fraquezas. Momento de suprema decisão pois, trata-se em realidade de escolher entre a sabedoria e a estupidez.

79. O alcool produz nos  sentidos uma vibração que nos permite distorcer nossa percepção da realidade e fazer uma nova leitura dela. Aquilo que devia ser recebido como uma totalidade, nos chega descomposto e assim podemos tomar nota de seus elementos e estabelecer entre eles uma nova ordem de prioridades. Ao beber, simplesmente trocamos a lente e vemos uma imagem diferente do mundo. Uma imagem que tem a vantagem de ser diferente da natural. Nesse sentido, a embriaguez é um método de conhecimento mas, a embriaguez moderada, aquela que nos distancia de nossas próprias certezas não a embriaguez total, na qual nossa consciencia diz adeus ao nosso comportamento.

78. Para um pai, o calendário mais verdadeiro é seu prórpio filho. Nele, mais que em espelhos ou almanaques, tomamos consciencia do transcurso dos dias e registramos os sintomas de nossa deterioração. O dente que a ele sai é o que perdemos, o centímetro que cresce é o que diminuimos, as luzes que adquire são as que em nós se extinguem, o que aprende é o que esquecemos e o ano que soma é o que nos é subtraído. Seu desenvolvimento é a imagem simétrica e invertida de nosso consumo pois ele alimenta-se de nosso tempo e constrói-se com as amputações sucessivas de nosso ser.

 

77.  Em seu comportamento com as mulheres os homens são em geral estúpidos, presunçosos e francamente detestáveis. Minhas viagens em Metro já me familiarizaram com o cerimonial dos machos mediterraneos – espanhóis, italianos, argelinos e em menor grau franceses – que desde que sobem ao vagão não pensam em outra coisa que localizar uma mulher, de preferencia bonita, mas se não encontram, a qualquer mulher, para aproveitar o aperto e esfregar-se contra ela. Se não é hora de aglomeração, não importa. Tratam de colocar-se frente a uma mulher para mirar-lhe bem as pernas ou os mais romanticos, fixar-lhe os olhos esperando não sei o que em vão, durante dez ou vinte estações. Mas, o cúmulo, pelo que tem de quimérico o projeto ou de efemero como prazer, são as agressões visuais que sofrem as mulheres de homens que não viajam no seu Metro mas, que estão no que vai em sentido contrário.

 

 

 

Os vagões cruzam-se durante segundos em cada estação mas, ainda assim nunca falta, Deus me perdoe, um bigodudo, magrela ou depravadamente calvo que, lance uma olhadela ávida até o vagão em sentido contrário e que se percebe uma mulher bonita não a observe com impertinencia ou gula, provocação ou arrogancia. Que função cumpre essa fugaz olhadela: É a homenagem genérica, impessoal, rotineira do sexo forte ao fraco? O propósito de registrar uma figura que passará a formar parte de um harem interior? A esperança de surpreender na mulher observada uma resposta a esse fulminante convite sexual? Mas supondo que a resposta seja afirmativa, como se passaria de um vagão a outro que vai em sentido contrário o ao menos marcar um encontro em frações de segundo? Tudo isso é uma loucura, uma ilusão. Mas, sucede todos os dias no Metro, até as naúseas, até a compaixão. Porque o macho mediterraneo quando termina sua viagem de Metro não deve levar mais que o peso de uma terrível frustração, sem outra saída que a de fazer o amor no escuro com a sua mulher feia ou masturbar-se estoicamente como um orangotango enjaulado. 

76. Jantando de madrugada em uma cantina com um grupo de operários, percebo que o que separa as classes sociais não são tanto as idéias mas os modos pessoais. Provavelmentew eu concordada com as aspirações dos que estavam ali comigo e estava melhor preparado que eles para defendë-las, mas o que nos distanciava irremediavelmente era a maneira de segurar o garfo. Este simples gesto, assim como a maneira de mastigar, de falar e de fumar, criava entre nós um abismo maior que qualquer discrepancia ideológica. É que os modos são um legado que adquire-se através de várias gerações e cuja presença permanece acima de qualquer mudança intelctual. Eu estava de acordo com a manifestação da qual falavam e inclusive com a greve, mas não coim a vulgaridade de seus gestos, nem como o caráter caótico e estridente de seu discurso. O sabor do meu bife teria sido melhor se estivesse sendo comido frente a um porco oligarca, mas que soubesse desdobrar o guardanapo. Eu poderia haver discordado com eles por nosso comportamento e não por nossas opiniões pois a comunicação entre as pessoas flui mais facilmente através das formas que dos conteúdos.

A importancia dos modos pessoais é tão grande coisa que, os que em meu  país são chamados *cafonas* tentam pular de uma classe para a outra – não mediante uma mudança de mentalidade mas, tratando de imitar os modos alheios, sem se darem conta de que é fácil copiar as idéias, já que são invisíveis mas não é fácil copiar as maneiras que requierem uma demonstração permanente que os expõe ao ridículo.

Os modos não se copiam, se conquistam. São como uma acumulação de capital, um produto, fruto do esforço e da repetição, tão válido como qualquer outra criação da energia humana. São o passaporte que permite a  uma classe identificar-se, frequentar-se, conviver e sustentar-se acima de suas discórdias ocasionais. O único que pode chegar a nivelar os modos pessoais, inventando outros novos, mais naturais e mais suportáveis são as verdadeiras Revoluções. Por causa disso, as que não são autenticas, são reconhecidas, não pela ideologia que tratam de divulgar mas, pela perpetuação dos modos de uma sociedade que acreditam haver destruído.

 January, 19 – 2008

75. A própria natureza de cada pessoa tende a expulsar a dor, não a conservá-la. Depois de 3 dias da morte de T. penso menos nela e quando penso já não sinto mais essa opressão sobre o peito, na garganta, essa opressão que quando não dominada, avança até nossa cara, deforma nossos traços e converte-se em pranto. Vamos descartando a dor em pacotes pequenos até que somente conservamos o espanto, a indignação. Uma menina de 8 anos, linda, mimada, filha única de um casal que a adorava, pais inteigentes, lindos também, de posição social acomodada, que podiam garantir a sua filha uma vida, que  seria impossível prever feliz mas, que continha todos as cartas para que não fosse uma vida desgraçada. E essa criança foi subitamente vítima de uma doença incurável. Em um ano, entre entradas e saídas de hospitais, melhoras e recaídas, vai perdendo sua beleza, seus cabelos, sua vida, até transformar-se em uma bonequinha triste, ossos e pele transparentes que, muito assustada, não consegue explicar a si mesma o que lhe sucede, não compreende porque antes corria, pulava nos parques, praias e jardins com outras crianças e agora tem que estar nesse quarto de hospital, sem poder se mover da cama, rodeada de enfermeiras, de homens vestidos de branco que a observam, a apalpam, a espetam e de seus pais que cada vez falam menos, que envelhecem dia-a-dia em sua cabeceira, que a olham fixamente como a alguma coisa que vai deixando de pertencer-lhes.  Ignorante, inocente, está já mordida pela morte e um dia, de repente, já não volta a ver a seus pais, nem a seu ursinho de pelúcia com o qual dormia, nem a seu livrinho de estórias, nem a seringa que tanto temia, nem nada. Toda alma, todo sopro de vida a abandona. Fica enrugada, oca, vã, pura embalagem, como uma bola de gaz, vazia. A última vez que a vi, antes de sua última entrada ao  hospital foi em sua casa. Naquela ocasião, apesar de sua leve melhora, podíamos dizer que não vivia mas, mimava a vida. Haviam comprado-lhe uma fantasia de dama espanhola. Encantada, ela vestiu o traje e deu um passeio pela sala, representando fugazmente um papel de adulta, fase a que não chegaria jamais.   Por que nos aflige tanto a morte de uma criança? Não é, por acaso, a mesma coisa morrer aos 8 ou aos 30 ou 40 anos? Não. Porque com as crianças morre um projeto, uma possibilidade, enquanto que com os adultos morre algo já consumado. A morte de uma criança é um desperdício da natureza, a de um adulto é o preço que se paga por um bem disfrutado. 

 

Janeiro, 18 – 2009

 

 

74. O velho, o ancestral caçador que há em todos nós renasce em certas circunstancias. Qualidades que possuimos dispersas, mas muito raramente concentradas em uma só atividade, como são o silencio, a paciencia, o sigilo, a atenção, a agilidade, a celeridade, a surpresa, se marcam encontro  na superficie de nosso ser e nos convertem em um experiente e cruel homem do paleolítico. Assim, quando meu gato comete alguma grave travessura, com que astucia e tenacidade o  surpreendo encolhido atrás do sofá ou atrás de porta, fazendo com que caia em uma cilada sutil, preparada em intermináveis minutos, para ao fim saltar sobre ele e atacá-lo por seu lado mais vulnerável.

 

73.  As turistas norte-americanas do onibus  velhas e enrrugadas. Mas, enrrugadas de uma maneira diferente de como costumam enrrugarem-se as mulheres de outras latitudes. Essas hao enrruguecido no conforto e na bonança. Os surcos ou marcas em seu rosto eram o fruto de momentos de prazer e de júbilo fartamente repetidos até a imprimir-lhes  a máscara de uma velhice sem grandeza, a velhice da satisfação.

 

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Janeiro, 02 – 2009

72. Literatura é afetação. Quem escolheu para expressar-se um meio derivado, a escritura e não um natural, a palavra, deve obedecer as regras do jogo. Assim que, toda a tentativa para dar a impressão de que não é  Afetado – monólogo interior, linguagem coloquial – contituem ao final uma afetação elevada a segunda potencia. Mais afetado que um Proust pode ser um Céline ou mais que um Borges, um Rulfo. O que deve evitar-se não é a afetação congenita a escritura, mas a retórica que se soma a afetação.

Janeiro, 01– 2009

71. Nada mis deprimente que perceber por uma janela entre-aberta o interior de uma casa de encontros parisiense. Cada uma dessas casas é um santuário do horrivel. Neste pequeno espaço marcam encontro os objetos mais feios do mundo: flores de plástico, bibelos de ferro e esses peixes de ceramica, rígidos, sinistros que presos a uma parede nos encaram com seus olhos cegos. Se alguem quisesse, de repente, fazer um museu ou uma exposição com o mais tosco e vulgar de nossa manufatura bastaria sair  recolhendo por essas casas. O gosto dessas mulheres é realmente demoníaco, não tem paz nem limites. Existe toda uma indústria, sem dúvida, especialmente destinada a satisfazer este apetite estragado e que fabrica em série, aconselhada por desenhistas paranóicos, toda uma quantidade de produtos para os quais o mercado espiritual é ilimitado: sapatinhos de la, cupidos de mármore, fruteiras de madeira entalhada e esses centros de mesa, espécie de natureza morta, em azulejos, que fascinam a cúmulo de horror e terminam por povoar toda nossa vida de pesadelos.

 

December, 31 – 2008

70. Podemos conceber um espaço sem tempo, mas não um tempo sem espaço. O tempo necessita das coisas para existir. Em um universo absolutamente vazio o tempo não existe. O tempo é assim uma qualidade do ser, alguma coisa que lhe pertence por definição mas da qual não podemos separá-lo. O tempo não pode isolar-se, nem armazenar-se, nem em um calendário, nem em um relógio.Não podemos poupá-lo para usar depois. O tempo desaparece conforme se usa, Para atrás não há absolutamente nada:  Nada separa o dia de ontem da batalha de Waterloo, estão unidos por sua própria inexistencia. O único tempo possível é o futuro, pois o que chamamos presente não é outra coisa que um permanente desaparecer. Mas o futuro mesmo não sabemos em que consiste, é uma possibilidade. Sabemos que está lá, que vem ao nosso encontro, que está a ponto de chegar. Mas, Como?  Onde? O tempo seria assim o ambito da caída do que não existe, ou talvez a a prória caída.

   69. Passa uma vistosa caminhonete amarela com este anuncio publicitário: “Café fort décaféiné pour actifs décontracté”. De imediato a imagem do “actif décontracté” apresenta-se a meu espírito de maneira nítida, cansativa, grosseiramente sensorial. Vejo neles a raça dos triunfadores: executivos de empresas, atores de cinema, animadores de televisão, técnicos em informática ou em  relacões públicas etc. E na sequencia descubro que com essa gente os frustrados, os medíocres, nunca tem contacto e por isso é que, como não podem aprender com eles, nem imitá-los, continuam na mediocridade e na frustração. As pessoas exitosas somente buscam e se reúnem com pessoas igualmente exitosas e os fracassados com os fracassados estão. Por isso o abismo que separa os triunfadores dos perdedores alarga-se cada vez mais, como o que os economistas diagnosticaram entre povos pobres e ricos. Tão raro é que um milionário ande com um pobretão como que um artista renomado relacione-se com artistas de circo. As pessoas que triunfam formam de imediato uma casta, como os ricos, porque triunfo e fortuna são complementares, caras da mesma moeda. E esta associação espontanea é explicável porque o exito chama o exito, como dinheiro chama dinheiro. O exito só pode aumentar se está em contacto com o exito, porque  reflete-se nele e se fortalece, assim como os ricos se aliam com outros ricos porque de sua aliança brota mais fortuna. Isso explica também a avidez da massa popular pela televisão, as revistas de cine, a vida oculta ou privada de milionários e de reis: porque é a única maneira de aceder as esferas inacessíveis da glória ou da fortuna. Uma participação mediatizada é verdade, através do buraco da fechadura da imprensa barata, mas que serve para alimentar ilusões ou ensinar aos frustrados, não o caminho mas, a direção que seguiram e sobretudo os frutos que recolhem os “actifs décontractés”.

68. Cada vez mais tenho a impressão de que o mundo vai progressivamente despovoando-se, apesar do barulho dos carros e do vai-e-vem da multidão. É tão difícil agora encontrar uma pessoa! Na rua nos cruzamos apenas com silhuetas, com figuras, com símbolos. Um motorista de taxi, por exemplo, não é um indivíduo, mas um modelo social. Resmungão, amargo, insolante, antes  que subamos ao carro já sabemos do que vai falar. Que esperteza vai  inventar para fazer mais sinuosa e proveitosa a corrida. Um vendedora de uma grande loja de departamentos é a mesma vendedora de todas as grandes lojas: indiferente, desdenhosa, maleducada e com ar de grande senhora caída ali por acaso. E a adolescente em jeans que nos aborda na calçada não é o anjo pessoal com o que sonhamos desde nossa infancia, mas uma cópia de uma tiragem de milhares de exemplares da pedinte que tanto em Paris como em Londres, São Francisco ou Hamburgo, detém ao pedestre para pedir-lhe uma moeda destinada ao arquétipo barbudo que a espera cruzando a rua enrolando um cigarro de maconha. Compreendo as causas dessa degradação da personalidade nas cidades em estado demencial, somente verifico agora seus efeitos. Mas é penoso que tenhamos que viver entre fantasmas, buscar inutilmente um sorriso, um convite, uma abertura, um gesto de generosidade ou de desinteresse e que nos vejamos forçados, em definitivo, a caminhar rodeados pela multidão e no deserto.  

67. Quem conhece minha faceta de animal noturno? Quantas vezes no meu quarto, estando ocupado em alguma leitura, senti penetrar pela janela, pelo vão da porta, o chamado da noite. Vestir-se o casaco e começar a caminhar. Pequenas luzes, céu opaco ou estrelado, gente que sai de banho tomado, peiteada, em busca do prazer. Estacionando nos bares, sem precipitação, bebendo devagarinho um trago fino, olhando, pensando, sentindo operar-se a transfiguração… De repente já somos outro: uma das nossas cem personalidades mortas ou repelidas nos ocupa. Nosso corpo a portará, a suportará até o amanhecer. Logo a enterrará em uma má cama de hotel, em um último trago que nunca devia haver existido. Rostos de mulher, belas cortesãs, beijos pagos, comédias de amor, minhas enormes, minhas incontáveis noites de bebedor anonimo em Europa, que coisa importante me ensinou?

Velha e exata metáfora de identificar a mulher com a terra, com o que surca, se semeia e se colhe. O arado e o falo se explicam reciprocamente. Elas são em realidade o humo onde estamos assentados, de onde viemos até onde vamos. Fazer o amor é um retorno, um impulso atávico que nos conduz a caverna original onde bebe-se a água que nos deu a vida.

 

66.  Quanto mais conheço as mulheres, mais me espanto. Se não acontece alguma mutação no genero humano, estes seres que entre as pernas, em lugar do nosso penduricalho, tem um surco, um estojo, seguirão sendo enigmáticos, caprichosos, tontos, geniais, ridículos, enfim, para dizer em uma palavra: Maravilhosos. O que me atrae nelas?  Ao chegar aos 40 anos a gente se da conta que mais vale viver no meio de mulheres que de homens. Elas são leais, atentas, admiram-se facilmente, são serviciais, sacrificadas e fieles. Não rivalizam conosco no terreno da vaidade e do amor, como os outros homens. Com elas sabemos exatamente que,  se não estao do nosso lado, estão em contra, mas nunca a meias palavras, ciúmes e essas coisas que temos com os nossos pares. Além disso, elas são as únicas que nos poem em contacto direto com a vida, vendo-se esta em seu sentido mais imediato e também mais profundo: a companhia, a conjunção, o prazer, a fecundação, a procriação.     

65.  Pela mesma calçada deserta por onde caminho, um homem vem em minha direção, a uns cem metros de distancia. A calçada é larga, de modo que há muito espaço para que passemos sem tocar-nos. Mas, a medida que o homem se aproxima, o espécie de radar que levamos dentro se desorienta, tanto o homem como eu vacilamos, ziguezagueamos, tratamos de evitar-nos, pero tão  desajeitadamente que acabamos por precipitar-nos para uma eminente colisão. Esta finalmente não se produz, pois faltando uns centímetros conseguimos frear, cara contra cara. E durante uma fração de segundo, antes de prosseguir nossa marcha, trocamos uma fulminante mirada de ódio.

64. As comissárias de bordo formam numerosas seitas e estão agrupadas em diferentes paróquias voadoras. Elas são sacerdotisas da religião de técnica e estão por princípio, consagradas a morte. Umas de vermelho, outras de azul, outras de amarelo, cruzam-se pelo aeroporto,  cumprimentam-se,  reunem-se, se dispersam, desaparecem, guiadas por uma voz  invisível, máxima, que as entrega a Rosa dos Ventos. Quantas delas essa mesma manhã lavaram seu corpo, ajustaram a meia de nylon, pintaram os olhos, para horas depois de tomar o avião terminar penduradas em pedaços de árvores de um trópico sem alma ou grudadas para sempre um dos picos mais inacessíveis.   

63. Observação banal que me deixou aturdido, tanto que imagino que deve haver nela uma falha imperdoável. Parti do princípio que tenho pai e mãe, 4 avós, 8 bisavós e 16 tataravos. Porque não seguir adiante? Com lápis e papel fiz a progressão. No ano de 1780 tinha 64 ancestrais, (calculando 30 anos por geração), no ano de 1480, tinha 65.536, no ano de 1060, tinha 1.069.645.824. E não segui adiante porque já começava a entrar no absurdo, na maior falsidade histórica: simplesmente porque no ano der 1060 a população do mundo não chegava a 2 milhões de habitantes. Que explicação pode ter isso? O incesto e a poligamia podem reduzir em parte estas cifras, mas não ao extremo de anular sua inaceitável quantidade. Mistério. Paradoxia. Cada habitante do globo descende de todos os habitantes anteriores (cone invertido), mas de um anterior habitante do globo e de sua mulher descendem todos os habitantes atuais (cono normal).

 

62. O acaso de meus trabalhos e andanças me leva ao bairro de Saint-Cloud, perto da casa onde viveu uma amiga há uns 16 anos atras. Volto, pergunto, procuro o lugar onde morava. Chego ao Sena e ando uns metros pelo cais. Busco em vão. A antiga ponte foi substituída por uma mais moderna e para isso foi necessário derrubar sua casa que dava para o rio. Alí, exatamente onde ficava sua cama, seu quarto com uma varanda  sobre o rio, está erguido agora o pilar da ponte, sobre um cais de cimento. Não sobrou nada. E eu que queria apenas dar uma olhada na janela onde juntos, a tardinha, víamos passar os enormes barcos. Ela, a milhares de quilometros daqui, não pensa nisso e eu, se não tivesse passado no bairro, por acaso, também  não pensaria. Mas o lugar, por que também ele deveria cair não somente no esquecimento mas, na destruição? Que testemunho, que rastros?  Também morrem os lugares onde fomos felizes.    

December, 13 – 2008

61. Essas mnhãs nulas, canceladas, nas que escuto música sem ouvir, fumo sem sentir o sabor do tabaco, olho pela janela sem ver nada, perco em realidade todo contato com a realidade sem que por isso logre um maior contato comigo mesmo, essas manhãs, nem no mundo nem na minha consciencia, floto em uma espécie de terra de ninguém, um limbo onde estão ausentes as coisas e as idéias das coisas e não me deixam outro legado, essas manhãs, que uma duração sem conteúdo.  

 

60. A mim os entrevados, os tarados, os mendigos, e os párias. Eles vem naturalmente a mim sem que tenha necessidade de convocá-los. Basta com que eu suba a um vagão de metro para que em cada estação, de um em um, subam e se acerquem a mim, até que eu me converta em algo assim como o monarca sinistro de uma Corte dos Milagres. A juventude, a beleza, no vagão da frente, no vagão vezinho ou no trem que já se foi. Em quantas bifurcações dos corredores do metro perdi para sempre um amor.

December, 11 – 2008

59. Um touro negro a sombra de uma oliveira. Prados em declive  repleto de melões. Pouca uva. Laranjas a perder de vista. Montículos de oliveiras. Um tunar extraviado.Cabras sedentas. Pouca água. Pobreza. Planícies de girassoles secos. Uma velha enlutada cavando a terra sob o sol. Ciganos andarilhos. Andaluzia.

December, 10 -2008 

58. Agora que meu filho brinca em seu quarto e que eu escrevo no meu me pergunto se o fato de escrever não será a prolongação das brincadeiras da infancia. Vejo que tanto ele como eu estamos concentrados no que estamos fazendo e tomamos nossa atividade de forma séria, como  sempre acontece com os jogos. Não admitimos interferencias e desalojamos imediatamente qualquer intruso. Meu filho brinca com seus soldados, seus automóveis e suas torres e eu jogo com as palavras. Ambos com os meios que dispomos, ocupamos nossa duração e vivemos um mundo imaginário, mas construído com utensílios ou fragmentos do mundo real. A diferença está em que o mundo do jogo infantil desaparece quando ele há terminado de brincar, enquanto que o mundo do jogo literário do adulto, pra bem ou para mal, permanece. Porque? Porque os materiais do nosso jogo são diferentes. A criança  emprega objetos, enquanto nós usamos sinais. E para esse caso, o sinal é mais duradouro que o objeto que representa. Deixar a infancia é precisamente substituir os objetos por seus sinais.  

 December, 9 – 2008

57. As únicas pessoas civilizadas da praia de Albufeira são esses agricultores que as vezes vem de suas chácaras de figos e almendras, vestidos de preto, sob de um tremendo sol, com sua maneira esquisita de usar o chapéu, caído sobre os olhos e levantado sobre a nuca e que ficam contemplando em silencio, um pouco assustados, mas com dignidade, indulgencia e sabedoria aos turistas que disfarçados de rãs, carregando bolsas atoalhadas, com o corpo cheio de oleo como  armas de fogo, desembarcaram de carrros produzidos no Norte e agora se torram na areia, lendo Die Welt, Then Times, Le Monte e introduzindo, sem dar-se conta, nesse espaço belíssimo, os primeiros sinais do barbarismo.

December, 8 – 2008

56. Um amigo me contou negligentemente, como se não fosse nada, uma coisa que ocorreu há anos atrás, muitos anos e de repente sinto dentro de mim uma queda de marquises. Zonas íntegras do meu passado se afundam, se inundam ou se transfiguram. Isto me serve para comprovar que não somos donos de nada, nem mesmo do nosso passado. Tudo o que vivemos e que tendemos a considerar como uma aquisição definitiva, imutável, está constantemente ameaçada por nosso presente, por nosso futuro. A maravilhosa história de amor, que guardávamos em um sarcófago de nossa memória e que visitávamos de vez em quando para buscar nela um pouco de orgulho, de ánimo, de calor ou de consolo, pode reduzir-se a pó por uma carta  encontrada em um livro velho no dia em que resolvemos mudar de lugar as estantes da biblioteca. Uma puta nos conta uma noite que o pai amado, que ficava até mais tarde no escritório para ganhar mais e manter com folga a sua família, frequentava a essa mesma hora os prostíbulos más abjetos da cidade. Por casualidade descobrimos  que o amigo adulto que admirávamos quando criança, porque era muito generoso e sempre presente, era um pederasta que nos iludia com o propósito de  nos corromper. Mas nem tudo se deteriora nesta permanente erosão do passado. Também as épocas sombrias se iluminam. Assim, a avó que odiávamos e que encheu de rancor nossa infancia por sua severidade, seu mal-humor, seus caprichos, era em realidade uma mulher muito boa, que sofria um mal incurável e que repartia folhetos de publicidade nas casas para poder comprar balas e doces a seus netos. Resumindo, nada adquirimos, nem paz, nem glória, nem dor, nem penas. Cada instante nos transforma em outro ser, não somente porque se soma ao que somos, mas porque determinará o que seremos. Somente podemos saber o que éramos quando nada mais  nos possa afetar, cuando, como dizia alguém, o quadro já esteja pendurado na parede.  

December, 7 – 2008

55. –  Ontem recordei subitamente as noites de Miraflores e comecei a e escrever uma narração. Então e somente nessa hora me dei conta de que essas noites – duas ou tres da manhã – tinham uma música particular. Não eram silenciosas. Nessa época, quando vivíamos essas noites, incluside dizíamos: “Que tranquilidade! Não  se escuta nada”. Mas era falso. Somente agora, ao relembrar essas noites com a intenção de descrever-las, posso me dar conta conta dos rumores que as povoavam. Ressacas de beberrões, os ruidos do trem noturno que passava longe, latidos de perros e uma espécie de zumbido, de estampido persistente y abafado, como o de uma trombeta que geme no fundo de um sótano. Compreendi então que escrever, mais que transmitir um conhecimento, é captar um conhecimento. O ato de escrever nos permite apreender uma realidade que até aquele momento apresentava-se para nós mesmos em forma incompleta, velada, fugitiva ou caótica. Muitas coisas as conhecemos ou as compreendemos somente quando as escrevemos. Porque escrever é devassar em a si mesmo e ao mundo com um instrumento muito mais rigoroso que o pensamento invisível: o pensamento gráfico, visual, reversível, implacável dos sinais alfabéticos.  

 December, 6 – 2008 

54.  As relações que um homem tem com sua mulher, por mais  maravilhosas  que sejam, com o tempo chegam a ser tão rotineiras como as que se mantem com uma cidade. Rotineiras no sentido que a atenção diminui e a pessoa acaba por não perceber da outra que está perto apenas  certos pontos de referencia. Assim como, depois de viver varios anos numa cidade não vemos mais as praças, as avenidas, os monumentos, a menos que uma coisa fortuita ou a obrigação nos chamem a atenção (tipo: aqui haviam árvores, oh! Que lindo vitral esse, etc..) do mesmo modo as vezes descobrimos que nossa mulher tem seios, ou bonitos olhos ou apetitosos  quadris… Mas são momentos esporádicos e dir-se-ia anormales, porque nos exigem  um novo enfoque ou uma nova regulagem no diafragma de nossa consciencia, o que implica um esforço e por essa mesma razão encontra  em nós resistencia. É por esse motivo que a vida conjugal, quando não existem filhos, nem interesses comuns, nem afinidades intelectuais, nem sobretudo compatibilidades temperamentais ou sexuales, chega a se converter em uma ficção, em um companherismo cego, tão fantasmal como o itinerário mil vezes seguido em uma cidade, no qual nos conduzem apenas nossos reflexos. A mulher compreende isso e as vezes trata de fazer-se visivel com um novo penteado, um detalhe no vestido novo, um convite para seguir por um bairro não visitado de seu corpo. O homem também compreende e exige as vezes um cambio de aparencia  (caso patológico dos travestis). Mas, os disfarces também cansam e  afinal, não são outra coisa que disfarces.

December, 5 – 2008 

53. Distancia:  A duzentos metros não podemos saber se uma mulher é bonita. A uns centímetros todas são iguais. A percepção da beleza necessita certa margem espacial, que varia não só de acordo com o observador mas também de acordo ao objeto observado. Entre nós, dizíamos sobre algumas mulheres, utilizando uma expressão já convencionada, “aprovada-a-distancia”. Outras, ao contrário “aprovadas-de-perto”, ao distanciarem-se notamos que são desproporcionadas, o muito magras e com pernas tortas. Que distancia deve servir-nos de padrão para dar um veredito estético sobre uma pessoa? Um amigo a quem consultei me respondeu: “ A distancia de uma conversação ”.  

 December, 4 – 2008

52. Viajar em um trem sentado no sentido do caminho ou de costas para ele: a quantidade física de paisagem que se ve é a mesma mas, a impressão que se tem dela é tão diferente. Quem viaja de frente se sente projetado para diante ou melhor se sente projetado  para a paisagem;  quem viaja de costas sente que a paisagem foge, escapa de seus olhos. No primeiro caso o viajante sabe que está próximo de chegar a algum lugar, cuja proximidade supõe; no segundo somente se afasta de algo. Assim, também na vida, algumas pessoas parecem viajar de costas: não sabem aonde vão, ignoram o que lhes espera, se esquivam de tudo e o mundo que os demais assimilam por um ato frontal de percepção é para eles somente fugas, resíduo, perdas, defecação.

 December, 3 – 2008

51.  Leitura do quinto volume da Historia da França, de Michelet. Assim como eu esqueço os detalhes do que leio e não guardo mais que uma impressão geral de malestar e de horror, além de tres ou quatro anedotas, o mundo esquece sua própria história, não a interroga e não tira dela nenhum ensinamento. Poderíamos dizer que a história foi feita para ser esquecida. Que pessoa , a não ser um especialista, reflete agora sobre as torturas que sofreram os judeus sob o governo de Felipe, o Belo, ou sobre o confisco  e destruição dos templários? Por isso mesmo, na história que será escrita no ano  tres mil, a segunda guerra mundial, que tanto custou a humanidade ocupará um só parágrafo e a guerra do Vietnã, uma nota no final de um  volume que muito poucos se darão ao trabalho de ler. A explicação reside em que o homem não pode ao mesmo tempo conhecer a história e faze-la, pois a vida se edifica sobre a destruição da memória.    

December, 2 – 2008 

50 – O policial do metro:  Belo rosto,  olhar nobre, nariz perfilado, expressão de sensibilidade e inteligencia, que me fizeram perguntar-me que fazia esse artista em potencial vestindo esse desprestigiado uniforme. De repente,  um  companheiro  se acerca e lhe diz algo ao ouvido. O policial começa a rir, os olhos se esbugalham, seu nariz se achata, seus maquixilares se desalinham, sua perfeita dentadura aparece ferozmente, todos os tendões e nervos de seu pescoço vibram, seus músculos faciais estão mais marcados e de sua garganta brota um rugido atroz, deshumano, como o de um javali acossado ou um touro travessado por uma lança. Sua risada é o que o delata.

 December, 1 – 2008

49. A surpresa ou melhor, o pavor que me produziu o empregado da Agencia com seu braço atrofiado, esse braço mais curto que o outro, que termina em uma mão que não é mão mas uma espécie de punho com unhas, ameaçando  o garçom do bar. Nesse momento  percebi que a extremidade que eu considerava seu ponto mais fraco e que devido a ela me compadecia, era seu instrumento normal de agressão.

 November, 30 – 2008

 48. Meu olhar adquire em privilegiados momentos uma intolerável  precisão e minha inteligencia uma penetração que me assusta. Tudo se converte para mim em desígnio, em presságio. As coisas deixam de ser o que parecem para converterem-se ,provavelmente, no que são. O amigo com o que converso é um animal vestido, cujas palavras com dificuldade compreendo, a canção de Monteverdi que escuto é a soma de todas as melodias inventadas até agora, o copo  que tenho em mãos  é um objeto que me oferece, atravessando os séculos, o homem de idade da pedra, o automóvel que atravessa a praça, o sonho de um guerreiro da Mesopotania e até meu pobre gato, o mensageiro do conhecimento, a tentação, a catástrofe. Cada coisa perde sua candura para transformar-se no que esconde, germina ou significa. Nesses momentos, insuportáveis, o único que se deseja é fechar os olhos, tampar os ouvidos, abolir o pensamento e fundir-se em um sono sem fim.

 November, 29 – 2008

 47. Entre todos os homens (desde os da  antiguidade até os de nossos dias) existe um denominador comum: a crueldade. Esta não diminuiu em nossa época. Foi talvez delegada e as vezes é quase invisível. Agora  existem  executores oficiais da crueldade (policiais, torturadores, tropas de choque) que a canalizam e a praticam de forma regulamentada e geralmente clandestina. Antigamente, ao contrário, era pública e se exercia em forma mais direta: os bispos degolavam, os reis faziam justiça com as próprias mãos. Carlos III , rei de França  chega a Bruxelas  no século XIV, ve na catedral quatro mil estribos de soldados franceses exterminados na época de Felipe, O Belo, pelos  flamencos y em la mesma hora ordena  que todos os habitantes da cidade  sirvam o  exército. Vingança monstruosa, fria e diferida em um século.

 November, 28 – 2008 

46. O mundo não está feito para crianças. Por isso o contacto mundo-criança é sempre muito doloroso,  muitas vezes catastrófico. Se pega uma faca se corta, se sobe em uma cadeira se cai, se sai para a rua um carro o atropela. É curioso que em tantos mil anos de civilização não se tenha feito praticamente nada para aliviar ou solucionar este conflito. Inventaram os brinquedos, é certo, que é um mundo em miniatura feito a conta para as crianças. Mas elas enjoam dos brinquedos e, por imitação, querem constantemente possuir as coisas dos adultos. Com que decisão e espontaneidade se precipitam para o amanhã e que obstinação possuem para olhar o futuro. A custa da dor é que aprendem. A condição para que progridam é estar em contacto permanente com o mundo adulto, com o grande, o pesado, o desconhecido, o que fere. Seria o ideal, claro, que vivessem em um mundo a parte, acolchoado, sem facas que cortam nem portas que esmagam seu dedos. Que estivessem entre seus pares. Mas então, não evoluiriam. As crianças não aprendem nada de outras crianças.   

 

 45. Na rua Gay Kussac  me cruzo com o colombiano que viajou no meu camarote quando regressei ao Peru em 1958 a bordo do Marco Polo. Naquela ocasião fomos amigos, vivíamos fechados em um espaço pequeno, leíamos, fumávamos e bebíamos juntos. Agora, seis anos mais tarde, nos cruzamos como dois desconhecidos, sem ánimo de pararmos um instante para apertarmos a mão um do outro. Não é somente a fragilidade da amizade o que me surpreende, mas a coincidencia de havermos nos cruzado em Paris, de havermos estado outra vez os dois, mesmo  que fosse  por segundos, ocupando um espaço reduzido. Imagino o infinito encadenamento de circunstancias favoráveis para que este encontro se produza. Desde que nos despedimos em Cartagena em 1958 até esse momento  na Rua Gay Lussac, todos os atos de sua vida e os meus tiveram  que estar dirigidos, regulados com uma precisão desumana para coincidir, ele e eu, na mesma calçada. Qualquer pequena falta que houvesse ocorrido ontem , uma semana ou um ano atras, houvera  impedido este encontro.Na vida, em realidade, não fazemos mais que cruzarmos com as pessoas. Com umas conversamos cinco minutos, com outras andamos uma estação de metro, com outras vivemos dois ou tres anos, com outras ainda convivemos dez ou vinte anos. Mas no fundo ,não fazemos mais quer cruzar (o tempo não interessa) E cruzarmos sempre por sorte ou azar. E separarmos sempre.

 November, 26 – 2008

44. Projetar slides a cores dos grandes maestros: Rembrandt, Velásquez, Leonardo  etc. Logo projetar somente os detalhes de seus quadros, por exemplo, um fundo rocoso, o brocado de uma cortina, os desenhos de um tapete ou simplesmente um rosto em primeiro plano. Esses detalhes são já pintura moderna, como em algumas páginas de Rabelais ou de Cervantes  está toda a arte literária de nossos dias. Desde essa perspectiva, a arte chamada moderna  não seria outra coisa que um detalhe ampliado do antigo ou   “ olhar mais de perto “  a realidade.  Simples questão de distancia.

 November

43. O empregado da agencia que regressa a trabalhar depois de quatro meses de licença-saúde. Era um homem alto, forte, com uma barriguinha ligeira, uma cabeleira avermelhada  e um cigarro eternamente aceso em seu carnoso lábio. O qua ressurge dele é um resumo, um esboço triste de seu antigo ser, a ponto de que quando o vemos não podemos reconhece-lo.  O que resta dele?  Nem ele mesmo sabe, provavelmente,  porque quando voltamos a cabeça ao reconhece-lo nos derrama um olhar ansioso e triste, como  se o fizera do canto mais profundo de uma masmorra. Fechado, dentro de sua nova fisionomia, pede, quase implora que o reconheçam e que o resgatem  dela com um aceno.  A doença lhe há marcado, recortado, humilhado, fundido, encorvado, aterrado, transformado em outro homem que tem provavelmente o mesmo registro de nascimento e conserva sua memória mas que já não é mais o gordo fumador , mas o espectro de sua própria velhice, chegada antecipadamente a nós através de um implacável angulo o de uma grave enfermidade. Seu rosto tem a expressão do homem que acaba de escapar de um terrível acidente, de um naufrágio, no qual a morte teve tempo de imprimir-lhe sua marca de propriedade.

 November, 24 – 2008

42. O que poe um homem a perder não são tanto seus grandes vicios mas seus pequenos defeitos. Se pode conviver muito bem com a preguiça, a prodigalidade, o fumo ou a luxúria, mas  em compensação, que danosas são as negligencias ou os pequenos descuidos. Parece que a vida, como certas sociedades tolerara os grandes crimes mas castigara implacavelmente as faltas. Um banqueiro pode muito bem roubar  ao Fisco ou dirigir um tráfico de armas, mas Deus lhe livre de cruzar com seu automóvel um sinal vermelho.

 November, 23 – 2008

41. O pequeno comerciante frances está tão identificado com o seu negócio que quando sai dele perde sua personalidade. Quantas vezes cruzo no meu bairro com homens e mulheres que me parecem conhecidos, mas eu não poderia afirmar se são o açougueiro, o biscateiro, a verdureira ou a garçonete. Somente quando os vejo dentro de suas molduras  habituais, cortando carne, pesando batatas ou servindo vinho logro reconhece-los. Diria-se que eles só existem em função dos objetos que manipulam e dentro do contexto de uma atividade determinada. Esta atividade é que os individualiza, os completa com um ser. Fora dela  tornam-se entes impessoais, anonimos, sujeitos de uma oração incompleta a qual não sabemos que complemento adicionar-lhes.

November, 22 – 2008

40. É necessário que toda criança tenha uma casa. Um lugar que, mesmo perdido, possa mais tarde servir-lhe de refúgio a percorrer com a imaginação seu quarto, buscar seus jogos, seus fantasmas. Uma casa; já sei que se deixa para tras, se destrói, se perde, se vende, se abandona. Apesar de tudo isso, a uma criança temos que dizer-lhe que essa é sua casa. Não esquecerá nada dela, nada será desperdiçado, sua memória conservará a cor dos muros, o ar das janelas, as manchas do teto e até “a figura escondida nas pedras de mármore da lareira”. Tudo para ele será um entesouramento. Mais tarde não importa. A gente se acostuma a ser “cigano” e a casa se converte em pousada. Mas para a criança a casa é seu mundo, o mundo. Criança extrangeira, sem casa. Em casas de temporada, de passeio, que não deixarão nele mais que imagens nebulosas de móveis nada interessantes e muros insensatos. Onde procurará sua infancia no meio de tanta andança e tanto extravio?  A casa, a verdadeira, é o lugar onde a criança se desenvolve e se transforma, em um ambiente de tentação, de sonho, de fantasia, da depredação, dos descobrimentos e do deslumbramento. O que seremos está ali em sua configuração e seus objetos. Nada no mundo exterior e andador poderá substituir o espaço fechado de nossa infancia, onde alguma coisa aconteceu que nos fez diferentes e que ainda permanece conosco para que possamos resgatar quando recordamos aquele lugar da nossa casa.

November, 21 – 2008 

39. Cada amigo é  dono  de  uma  gaveta  escondida  de nosso ser,  da qual somente ele tem a chave e quando o amigo desaparece a gaveta fica para sempre fechada.  Separar-se dos amigos é como clausurar parte de nosso ser. Creio que eu teria sido diferente se tivesse continuado a encontrar e conviver com os amigos da minha juventude.  Mas as circunstancias nos separaram e continuamos viajando cada um por seu lado e por isso mesmo mutilados. E também por isso a certa idade  é difícil fazer novos amigos. Todas as facetas que oferecia nossa personalidade já foram ocupadas, seladas pelas velhas alianças. Não existe superfície livre onde uma nova amizade possa acomodar-se. A não ser que o novo amigo se pareça extremamente ao anterior e se valha dessa semelhança para penetrar ao recinto da primeira amizade. Mas por mais afeto que nasça sempre será o imitador, o falsário, o que nunca chegará ao cantinho mais apreciado. Cantinho irrisório, certamente, que não guarda mais que um montinho de pedras, mas que os olhos do amigo, do primeiro, transformavam no que ele queria ver:  o insubstituível.  

 November, 20 – 2008

 38. O jogo da Bolsa de Valores deve ser uma ocupação melancólica. Pelo menos a julgar pela centena de empregados  que diariamente vejo nos Cafés que rodeiam a praça da Bolsa de Valores. Sozinhos ou em grupos, exatamente as duas e meia da tarde, saem esses enigmáticos senhores pelas escadas de seu templo neoclássico. Que classe de gente é essa?  Se vestem bem, mas não se pode dizer que são elegantes. A idade oscila entre os trinta e os sessenta anos. Não são muito falantes nem comunicativos, exceto entre eles, quando formam seu pequeno clã. É gente preocupada, que sabe esperar. Em alguma coisa se parecem aos jogadores de loteria. Tem a mesma resignação e no fundo a mesma tenaz esperança. Talvez sua ocupação seja tão vã, tão romantica como a literatura. Evidentemente, eles não estão “dans le coup” . Alguém os controla, alguem está por cima de suas previsões, alguma espécie de divindade das finanças cujas intenções tratam de penetrar. Vem diariamente ao templo com a segurança de haver surpreendido algum desígnio do Olimpo, mas geralmente se equivocam. Desejam ser ricos? Será  que já são? Que melhor meio para se-lo, ao invés de montar um negócio, que estar aí onde o negócio se reduz a sua expressão mais abstrata, como pode se-lo somente um quadro negro com cotações? Por isso seu trabalho tem também alguma coisa de religioso,  de esotérico e é um exercício somente para os iniciados. São aguma coisa assim como os fiéis – não os sacerdotes, que permanecem ocultos – da grande missa cotidiana do capitalismo universal.

 November, 19 – 2008

 37. Um editor frances, ao comprovar que haviam caído as vendas dos clássicos, decide lançar uma nova coleção, mas na qual os prólogos não serão encomendados a intelectuais desconhecidos mas a estrelas da atualidade. Assim, Brigitte Bardot fará o prefácio de Baudelaire, o ciclista Raymond Poulidor o de Proust e o ator Jean-Paul Belmondo, que antes foi boxeador, o de Rimbaud. Belmondo começa seu prambulo com estas palavras: “Cada vez que leio um poema de Rimbaud sinto como um soco no queixo“   

Venda assegurada na certa.

 

 

November, 18 – 2008

 36. Dentro de uns anos alcançarei a idade do meu pai e uns anos depois superarei sua idade, isto é, serei mais velho que ele e mais tarde ainda pderei considerá-lo como se fosse meu filho.  Em geral, todo filho acaba alcançando a idade do pai e até superá-la e então se converte em pai do seu pai. Somente assim então, poderá  julgá-lo com a indulgencia que dá o fato de “ser mais velho”, compreende-lo melhor e lhe perdoar  todos seus defeitos . Além disso, só assim se alcanza a verdadeira maioridade, a que extirpa toda a opressão, mesmo a imaginária, a que concede a total liberdade.

 November, 17 – 2008

35. As palavras que os amantes dizem durante seu primeiro orgasmo são as que presidirão toda sua comunicação sexual no futuro.  São momentos de absoluta improvisação nos quais os amantes se rebatizam ou rebatizam as partes de seu corpo. Os novos  nomes regressarão sempre durante o ato para constituir o código  que utilizarão na cama. Estas palavras são inocentes e muitas vezes poéticas com relação ao que designam. As vezes são tambem  sem sentido. Ninguém está livre de dizer a sua mulher na noite de seu  primeiro encontro:  “Alcachofra” . E se lascou porque a partir de aí, terá que sempre dizer-lhe “Alcachofra”. O dia que não lhe diga lhe haverá deixado de amar.

 November, 16 – 2008

34. Observando as crianças brincando no parquinho da Rua da Procissão. A idade deles é entre 1 e 3 anos. A esta idade eles se amontoam mas não se comunicam. Estão interessados na vizinhança e no espetáculo, mas não no contacto direto. No fundo, cada um está tão sozinho como no quarto da própria casa, mas refletidos em múltiplos espelhos. Chegam inclusive a roçar a mão, a trocar os baldes intercambiáveis, mas praticamente sem falar, sem dar nada de si nem dizer nada, fora um objeto como o balde que, nesse caso,  é um objeto neutro. E nos bancos do jardim, em volta do poço de areia, os velhos. Sós também. Além de tudo se veem aposentados e  inválidos, bengala e boina, calados, olhando sem ver o filme de sua infancia que salta a seus pés e trata de atá-los, ao menos pela recordação, a vida. Só se pode tirar uma conclusão: a solidão dos bebes antecipa a dos velhos. Os parquinhos como o da rua da Procissão foram feitos para ambos. Que se reúnam  o cabo com o rabo. Assim  brinca-se quando criança, sozinho. Assim se toma-se sol na velhice, sozinho. Entre ambas as idades, o  intervalo, espaço povoado pelo amor ou a amizade, o único cálido, suportável, entre os extremos do abandono.     

 November, 15 – 2008

33. Quem pode dar testemunho das conversas que os amantes entablam dormindo? Apagada a luz, abandonados ao sono, algo neles permanece vigilante. Não seu espírito, nem sua consciencia mas, sua ternura. Diálogos noturnos, feitos de frases entrecortadas, de palavras aberrantes que não escutam e que entretanto, obedecem. Assim, ao despertarem-se recordam as vezes como uma outra vida, de alguem que lhes revelou durante seu descanso e se manteve atento e até relembram fragmentos de um discurso que, lúcidos, não compreendem e dele se riem.

 November, 14 – 2008

32. No rosto dos cegos de nascimento existe sempre algum outro traço, além de seus olhos nebulosos, viscosos ou simplesmente fixos ou fechados, que indicam sua cegueira. A boca, o nariz, os músculos faciais adquirem certa expressão particular que já é “uma expressão de cego”. Diriamos que esses traços, desconhecidos ou incontroláveis por quem os exibe, seguem suas inclinações naturais e se deformam ou se abrandam. Para o cego não existe o espelho que permite aos videntes corrigir seus traços a tempo e compor para si mesmo uma expressão adequada. A expressão dos cegos é livre, a mais natural que possa ocorrer. Lembra um pouco a expressão da pessoa que dorme. Parace que o rosto se organizara em volta do olhar e que quando este desaparece, se desbarata.   

 November, 13 – 2008

31. Não há que exigir das pessoas mais que uma qualidade. Se detectamos uma já devemos nos sentir agradecidos e  julgá-las  somente por essa e não pelas que faltam. É em vão exigir que uma pessoa seja simpática e também generosa ou que seja inteligente e também alegre ou que seja culta e também asseada ou que seja hermosa e também leal. Tomemos de cada pessoa o que nos pode dar. Que sua qualidade seja a paisagem privilegiada através da qual nos comunicamos e nos enriquecemos.

November, 12 – 2008

30. A chegada  de  uma criança em um lar é como a irrupção dos  bárbaros no velho império romano. Meu filho destruiu em 20 meses de vida todos os sinais exteriores e ostentatórios de nossa cultura doméstica: a estatuazinha de porcelana que herdei do meu pai, reproduções de escultoras famosas, cinzeiros raros furtados com tanta astúcia em restaurantes, cálices de cristal encomendados a Polonia, livros com  lindos gravados e o toca-discos portátil. Em frente a esses objetos, cuja utilidade desconhece, o menino se sente como um bárbaro diante de produtos enigmáticos de uma civilização que não é a sua. E como apesar de sua ignorancia e seu desconhecimento, ele representa a força, a sobrevivencia, isto é, o porvenir, destroi tudo. Destroi os sinais de uma cultura já caduca para ele porque sabe que poderá subsititui-los, já que ele encarna, potencialmente, uma nova cultura.

November, 11 – 2008

29. A luz não é o meio mais adequado para ver as coisas, mas para ver certas coisas. Agora que está nublado vi pelo balcão da varanda um maior número de detalhes na paisagem que nos dias ensolarados. Detalhes que ressaltam certos objetos em detrimento de outros aos quais deixam na sombra.  A  pouca luz de um  dia nublado põe a todos em um mesmo plano e resgata da penumbra os esquecidos. Assim, certas inteligencias medianas veem com maior precisão e com maiores nuances o mundo que as inteligencias luminosas, que  enxergam somente o essencial.

November, 10 – 2008

28. Com que irresponsabilidade vivem as pessoas! Olhando pela janela vejo um homem que cruza a rua com um pão, uma jovem levando um cachorrinho, um velho carregando um pacote, um pedestre que primeiro vacila mas depois escolhe o caminho a seguir, um casal de jovens abraçados, um motorista ao volante de um carro esporte. Despreocupados, indiferentes, dedicados a seus afazeres, suas rotinas, seus erros, seus deleites ou seus vícios. Ignoram, por acaso, que não pisam terreno seguro, que vivemos em permanente toque de queda, que em cada esquina os espreita o invencível? Não meditaram seguramente na frase de A Celestina: “ A morte nos segue e nos rodeia e até a sua bandeira nos acercamos “ .   

November, 9 – 2008

27. Por que existirão quartos que estrangulam nas pessoas que os habitam toda tentativa de criatividade? Este que tenho agora na Avenida dos Gobellins é o nicho do engenho. Estreitíssimo, comprido, escuro, ameaçado pelo barulho de tantos carros. Não se trata, entretanto, de um quarto miserável mas de um local onde se percebe a mão economica do proprietário e insuportável patrão de um hotel parisiense. É o que se poderia chamar de um quarto mesquinho.  Não existe a menor possibilidade de se deixar  cair  água  despreocupadamente na pia do banheiro , nem de se ligar um toca-discos porque os fusíveis se queimam. Não existe uma única prateleira onde se possa colocar livros, nem um esconderijo onde sepultar as maletas para evitarnos a impressão de ser eternos viajantes. Ao contrário, todo o desenho do quarto parece estar destinado a recordarnos que somos passageiros, que não temos a mais remota esperanza de estabilidade e que devemos eliumiar da nossa imaginação o projeto de estabelecer aqui nosso domicílio. Se os quartos pudessem falar, esse diria:  “Estrangeiro, eu consinto que durmas mas, vá embora o mais rápido possível e não deixes o menor sinal de tua passagem por aqui “.

 Novembro, 8 – 2008

26. Os dois faxineiros franceses da estação  do metro, com seus macacões azuis, falando em um dialeto, grunhindo melhor dizendo, sobre seu trabalho. Em que lhes beneficiou a Revolução Francesa?  Mais baixo  escalão dos ferroviários. Inútil seria perguntar-lhes que opinam sobre a Guerra do Vietnã ou a força nuclear. São justamente os tipos que fazem fracassar as pesquisas de opinião pública. Culpa deles? Culpa do sistema? Podemos pensar que a Revolução Francesa, toda revolução, não soluciona os problemas sociais mas que os transfere de um grupo a outro, ou seja, faz o endosso a outro grupo nem sempre  ao minoritário. Essa transferencia não  se produz necessariamente no momento da revolução mas pode diferir-se durante anos ou décadas. É certo que 1879 produziu a burguesia mais inteligente do mundo mas, ao mesmo tempo milhares de biscateiros, de zeladores e faxineiros de metro.

 Novembro, 7 – 2008 

25. Um   autor latino-americano cita a quarenta e cinco autores em um artigo de oito páginas. Aqui estão alguns   deles: Homero, Platão, Voltaire, William Blake, John Donne, Shakerspeare, Bachm Chestov, Tolstoi, Kierkegaard, Kafka, Marx, Engels, Freud, Jung,m Husserl, Einstein, Nietszche, Hegel, Cervantes, Malraux, Camus, etc. A meu juízo, a maioria dessas  citações eram desnecessárias. A cultura não é um armazém de autores lidos   mas,  uma forma de raciocinar. Um homem culto que cita muito é um incivilizado.

 Novembro, 6 – 2008

24. Quanto tem que circular os objetos para encontrar em uma casa o lugar apropriado. Nos poucos anos que vivemos na praça Falguiere, cadeiras, lâmpadas, quadros, estantes, hão sido protagonistas de uma  fatigante peregrinação que os levou de ambiente em ambiente e de canto em canto. Alguns, é verdade, se adaptam com facilidade e terminam por habitar pacificamente com seus  vizinhos . Outros, os insociáveis, os rejeitados, não encontram posição nem lugar e transitam sem descanso de um espaço a outro, sem lançar amarras em nenhum local. Mal que bem, a contragosto, terminam  as vezes por aceitar uma esquina e levar ali uma vida que eu suponho cheia de desconforto e de ressentimento. Mas há também os irrecuperáveis, aqueles que não aceitam nada e que como castigo a seu espírito subversivo são  enclausurados  no fundo de uma caixa ou no escuro de um porão. Objetos terríveis, condenados, que devem estar tramando em silencio alguma vingança atroz.

 November, 5 – 2008

23. Os anos nos distanciam da infância sem levar-nos forçosamente a maturidade. Um dos poucos méritos que admito em um autor como Gombrowicz é haver insistido, até o grotesco, no destino imaturo do homem. A madures  é uma imposição inventada pelos adultos para justificar suas torpezas e procurar-lhe uma base legal a sua autoridade. O espetáculo que oferece a história antiga e atual é sempre o espetáculo de um jogo cruel, irracional, imprevisível, ininterrupto. É falso, pois dizer que as crianças imitam os jogos dos adultos: são os maiores os que plagiam, repetem e  amplificam, em escala planetária os jogos infantis. 

 November, 4 – 2008

22. Existem amores horríveis que ultrajam em realidade a ascendência desse sentimento e o despojam de toda sua auréola romântica. Por exemplo, o que existe entre um dos chefes da Agencia e uma das secretárias. O chefe é viscoso, balofo, cinqüentão e medíocre. A secretária uma gorda enorme, com os dentes fora das gengivas e um nariz tão grande que é uma infração permanente as leis da cortesia. Uma dessa  mulheres, resumindo, que como dizia alguém, “colocariam em perigo a continuidade da espécie se um  se encontrasse sozinho com elas no mundo” E o pior de tudo é que ambos são casados,  em conseqüência cabe pensar que sórdida catástrofe deve constituir em cada caso seu próprio matrimonio, para que busquem fora dele esta compensação  abominável. Quando os surpreendo no escritório trocando sinais de inteligência, gracejos ou olhando-se  tontamente, me envergonho por mim, por minha espécie. E quando imagino que esses amores devem  consumar-se em segredo, adulterinamente, em quartos de hotel, em sabe Deus que camas de aluguel e tento imaginar seus atrozes corpos confundidos, sinto a tentação de lançar-me pela janela, acometido  por uma loucura incurável. 

Novembro, 3 – 2008

21. O fácil que é confundir cultura com erudição. A cultura em realidade não depende da acumulação de conhecimentos, inclusive em várias matérias, mas da ordem que esses conhecimentos guardam em nossa própria memória e da presença desses conhecimentos em nosso comportamento. Os conhecimentos de um homem culto podem ser numerosos, mas são harmônicos, coerentes, e  sobre tudo,  estão relacionados entre si.  No erudito, os conhecimentos parecem   armazenarem-se em prateleiras separadas. No culto se distribuem de acordo a uma ordem interior que permite sua troca e frutificação.  Suas leituras, suas experiências se encontram em fermentação e produzem continuamente nova riqueza:  é como um homem que abre uma conta com juros. O erudito, como o avaro, guarda seu patrimônio em uma meia onde só cabe o mofo e a repetição. No primeiro caso o conhecimento gera conhecimento, no segundo o conhecimento se soma ao conhecimento. Um homem que conhece detalhadamente todo El teatro de Beaumarchais é um erudito, mas culto é aquele que havendo lido somente *As Bodas de Fígaro* percebe a relação que existe entre esta obra e a Revolução Francesa ou entre seu autor e os intelectuais de nossa época. Por isso mesmo, o componente de uma tribo primitiva que possui o mundo em dez noções básicas é mais culto que o especialista em arte sacra bizantina que não sabe fritar um par de ovos.

 Novembro, 2 – 2008

20. Habituados a cidade, ignoramos,  nós os homens dessa época, todas as formas da natureza.  Somos incapazes de reconhecer uma árvore, uma planta, uma flor. Nossos avós, por pobres que fossem, tiveram um jardim ou uma horta e aprenderam sem esforço os nomes da vegetação. Agora, em apartamentos ou hotéis, o que vemos  são flores pintadas, naturezas mortas ou essas raquíticas plantas de macetas que parecem plantadas por cabeleireiros.

  Novembro, 01 – 2008  

19. Como eu, meu filho tem suas autoridades, suas fontes, suas referencias as quais recorre quando quer apoiar uma afirmação ou uma idéia, Mas se as minhas são os filósofos, os novelistas ou os poetas, as de meu filho são os  vinte álbuns das aventuras de Tintím. Neles está tudo explicado. Quando  falamos de aviões, animais, viagens interplanetárias, países longínquos ou tesouros, ele tem sempre a mão a frase exata, o texto irrefutável que vem em socorro de suas opiniões. Isso é o que se chama ter uma visão, talvez falsa, do mundo, mas coerente e muito mais sólida que a minha, pois está  inspirada em um só livro sagrado, sobre o qual ainda não há caído a maldição da dúvida. Só algum tempo mais tarde se dará  conta que essas explicações tão simples não casam com a realidade e que é necessário buscar outras mais sofisticadas.  Mas essa primeira versão  lhe haverá sido útil, como a placenta intra-uterina, para proteger-se das contaminações do mundo maior e desenvolver-se  com essa margem de seguridade que requerem seres tão frágeis.  A primeira rachadura de seu universo colorido, gráfico, será o sinal da perda de sua candura e de seu ingresso ao mundo individual dos adultos, depois de haver habitado o genérico da infância, do mesmo modo que em sua cara aparecerão os traços de seus ancestrais, logo de haver suportado a máscara da espécie. Então terá que  aprofundar-se, indagar, apelar aos filósofos, novelistas ou poetas para devolver  a seu mundo harmonia, ordem, sentido, inutilmente, ainda por cima.  

Outubro, 31 – 2008

18. O xadrez é como o amor venal, no qual o casal se reúne não por afinidade nem simpatia mas porque se necessitam reciprocamente para obter  de sua conjunção  um desfrute. Com o alemão fascista da Agencia não nos cumprimentamos nem trocamos uma única palavra durante toda a semana mas, basta que chegue o domingo para que nas horas livres joguemos uma partida. É um acordo tácito, que não vai precedido de nenhum convite verbal. Basta que comece a armar o tabuleiro para que eu me acerque a sua  mesa e se inicie a partida. Partida silenciosa da qual está excluído qualquer comentário. Quando está terminada, cada qual se reintegra a seus afazeres e se esquece completamente do outro, durante dias, mesmo que o encontre no elevador ou no café da esquina. Até o próximo domingo.

 Outubro, 29 – 2008

17. Os nomes mudam,  mas as instituições se perpetuam. Esses hoteizinhos  desengonçados  como os das rua Princesse ou Des Orteaux, onde se alojam os operários que vem do Mediterraneo, não são outra coisa que a versão moderna dos lugares onde viviam os escravos  romanos amontoados. Não encontro (em França de hoje) praticamente nenhuma diferença entre um pedreiro argelino ou português e um escravo da época de Diocleciano. Nesses hoteizinhos os peões estrangeiros se instalam perpetuamente e saem  somente para seu trabalho de todos os dias ou um dia, o último, rumo ao cemitério.  São estranhos esses hotéis, explorados geralmente por um conterrâneo de seus inquilinos. No primeiro andar está o bar-restaurante e um mostrador com as chaves e em seus quatro ou cinco andares as celas onde os operários dormem enclausurados em suas  cama-camarote. O local lhes oferece tudo bebida, comida, beliche, televisão, mesa para jogar baralho ou dominó. O que ganham na fábrica gastam  no hotel. Inútil dizer que diferentemente dos escravos, são livres. Não lhes resta nem sequer a esperança da alforria.

 Outubro, 28 – 2008

16. Uma mulher,  como anima uma casa. Quando ela está ausente as coisas se esgotam..  Tudo se cobre de pó e se  murcha. No vaso de flores um ramo seca, a cômoda cheia de poeira,  a lâmpada queimada, encardida a roupa. A mulher mantém  com  as coisas um comércio assíduo. São suas coisas, possessiva ela  as mima e acaricia. E as coloca em seu lugar, brilhantes e belas. Depositária dos objetos domésticos, tem  para cada qual uma palavra, uma paixão. Ela, somente ela, sabe onde estão  as tesouras, a linha, a caderneta que em vão buscamos. Mora nas coisas e as coisas moram nela. Sensível ao pequeno, descobre  a mancha no tapete, a cinza na mesa.  Nós, desdenhosos, distantes, adquirimos as cosas, mas logo as deixamos viver indiferentes e as vemos morrer sem  nenhum pesar.  

 Outubro, 27 – 2008

15. Esperando a alguém na boca do Metro vejo entrar e sair a centenas de moças – empregadas, estudantes, etc. – e me dou conta em esse instante de uma das grandes funções da moda. Seguir a moda é renunciar a seus atributos individuais para adotar os de um grupo ou, em outras palavras, deixar de ser uma pessoa para converter-se em um tipo. Os sinais da vestimenta que as mulheres  que estão na moda escolhem, no presente caso, calças compridas muito largas, casacos de pele, botas com altas solas – produzem uma ilusão no expectador:  confundir a cópia com o modelo. Quanto mais perfeita é a imitação mais fácil é a ilusão. Por isso a moda não é outra coisa que um disfarce coletivo que se adota em todas as temporadas de acordo a certos padrões de beleza impostos pelos modistas. O curioso da moda é que as mulheres  que a seguem  tentam ser observadas, mas terminam por uniformizarem-se, correndo o risco de passar  despercebidas .  Despercebidas?  Talvez como unidades de uma família mas não como família. Pois a ambigüidade da moda está em que oculta por um lado mas resplandece por outro.  Oculta as mulheres, pero  resplandece a mulher.

Outubro, 25 – 2008

14. A existência de um grande escritor é um milagre, o resultado de tantas situações fortuitas como as que são necessárias para que apareça uma dessas belezas universais que faz sonhar a toda uma geração. E quantas más cópias  tem que ensaiar a natureza!! Quantos Joyces, Kafkas, Célines flours, escondidos ou sobre expostos haverão existido. Uns morreram jovens, outros mudaram de profissão, outros se dedicaram a bebida, outros se tornaram loucos, a outros faltava-lhes um ou dois requisitos que os grandes artistas reúnem para elevar-se sobre o nível de subliteratura. Falta de formação, doenças, preguiça,  falta de estímulos, impaciência, angústias econômicas, ausência de ambição ou de tenacidade ou simplesmente de sorte, são como o bilhete de loteria prometedor ao qual só falta o último algarismo para ganhar o premio na rifa da glória. E alguns hão provavelmente reunido todas essas qualidades  mas  faltou a circunstância da sorte, a aparentemente insignificante (a leitura de um livro, a relação com um amigo) capaz de servir de  reação ao  composto quimicamente perfeito e dar-lhe sua verdadeira  coloração. Assim, no metrô algumas vezes vejo a uma mulher e me digo: “Poderia ser Brigitte Bardot mas, lástima que lhe falta 30 centímetros mais de altura”  ou   “Essa loura se parece a Marilyn Monroe mas, tem as pernas com duas estacas”. Elas são também provas ruins do modelo original, a mercadoria com falhas que se vende por  atacado.

Outubro, 24 – 2008

13. Dentro da gente existe uma espécie de centro meteorológico que emite cada manhã sua parte sentimental:  estaremos contentes, sofreremos,  explodiremos em raiva ao meio dia etc. E para essa previsão avançamos temerosos ou confiantes. Repartição enganosa, tão imprevisível como a que profetiza o clima: A tarde em que esperávamos tanta alegria se cobre rapidamente de uma insuportável tristeza. Mas também como ilumina essa  noite que se antecipava lúgubre o sorriso da desconhecida.

 Outubro, 23 – 2008

12. A história é um jogo cujas regras se perderam. Filósofos, antropólogos, sociólogos e políticos as buscam,  cada qual por seu lado, de acordo a seus interesses ou a seu temperamento. Mas só encontram fragmentos delas. A tentativa mais coerente para resgatar os princípios de este jogo é provavelmente o marxismo. Mas, não a única nem a definitiva. Será completada, retificada, inclusive rebatida, mas terá cumprido uma função de esclarecimento. Enquanto não surja outra explicação teremos que aceitá-la pragmaticamente. O terrível seria que depois de tantas buscas se chegue À conclusão de que a história é um jogo sem regras ou, o que seria pior, um jogo cujas regras se inventam À medida que se joga e que ao final são impostas pelo vencedor.    

Outubro, 22 – 2008  

11. A vida se satisfaz muitas vezes em oferecer-nos compêndios alegóricos da realidade, ou  melhor, frases magnificamente escolhidas do grande texto da história que vivemos. Nos corredores do metrô, no Primeiro de Maio, milhares de operários com roupa de domingo, jovens e velhos, com suas famílias, se excedem alegres, despreocupados, com destino À Feira de Paris, ao Campo de Marte ou ao Bois de Boulogne, todos com seu ramalhete de  muguet nas mãos. Estão felizes, almoçaram bem, é feriado, sua celebração. Sentados no chão de um corredor, dois estudantes  cabeludos  e barbudos, com guitarras, cantam um hino marcial e revolucionário  do qual só entendo uma estrofe:  Operários, levantem suas barricadas.   Os operários, sem pararem, lhes dirigem um olhar de reprovação, se sentem chocados, quase ofendidos. Nada mais fora de lugar que esses jovens falando de barricadas, lutas e conflitos(,) em um dia de descanso entre tantos dias de trabalho. A presença desses estudantes, sua atitude, seu propósito, é tão vã e ilusória como a dessas mulheres do Exército da Salvação que se plantam nas portas dos bordéis tratando de catequizar aos que procuram as putas.

 

Outubro, 21 – 2008

10. Observando O gato do restaurante: a maravilhosa elegância com que os animais desfilam sua nudez. Faz muito tempo comprovei isso nos cachorros e nos cavalos, Não existe nos animais nada de ridículo nem de desagradável. Se alguma vez suas posições ou seus atos nos irritam é por sua semelhança com os atos ou posições humanas: por exemplo, quando os animais fazem o amor.

Outubro,  20 – 2008

9. Podemos memorizar muitas coisas, imagens, melodias, noções, argumentos ou poemas,  mas  existem duas coisas que não podemos memorizar:  a dor e o prazer. Podemos talvez recordar as  sensações da recordação.  Se nos fosse possível reviver o prazer que nos provocou uma mulher ou a dor que nos causou uma enfermidade, nossa vida se tornaria impossível. No primeiro caso  se converteria em uma repetição e no segundo em uma tortura. Como somos  imperfeitos, nossa memória é imperfeita e só nos restitui aquilo que não nos pode destruir.   

 Outubro, 19 – 2008 

8. Careca, obeso, majestoso, com seus modos cheios de graça, o varredor da Agencia  me da sempre a  impressão de um bispo que por causa de alguma injustiça, tenha sido despojado de suas roupas sagradas. Quando o vejo transitar em uniforme nos corredores, com seu ar tranqüilo, sorridente e benévolo, imagino como o veríamos bem celebrando  uma missa ou presidindo uma cerimônia de canonização. Fala sozinho, cumprimenta cortesmente a  todo mundo, é um pacífico demente. Foi  um redator que, atacado de loucura erótica, tentou há muitos anos atrás violar a uma secretária em um elevador.  Não foi despedido mas, quando  saiu da casa de repouso, desmemoriado e aparentemente feliz, o rebaixaram  ao cargo de varredor.

 Outubro, 17 – 2008

7.  Lugares tão banais como a delegacia de policía ou o ministério do trabalho agora são templos  onde se decide nosso destino. Porteiros e  empregadas velhas com permanente e  óculos são os pequenos deuses aos quais estamos irremediavelmente submetidos. Deuses funcionarios   nos  recusam para sempre um documento e com ele nossa fortuna ou nos impedem o acesso  a uma  Seção que era a única na qual poderíamos consertar algum erro cometido. Os designios de esses  pequenos deuses burocráticos são tão impenetráveis como os dos deuses antigos e como eles distribuem a sorte e a dor sem apelação. A empregada do correio que nega-se a entregar-me uma carta registrada porque o remetente escreveu mal  uma letra do meu sobrenome é tão terrivel como Minerva desarmando a um soldado troiano para deixá-lo indefeso em mãos de um grego. Mortos os velhos deuses pela razão, renasceram multiplicados nas divindades mesquinhas das Repartições Públicas. Nas suas janelinhas, muitas vezes com grades, estão como em altares, esperando que lhes  derramemos nossa adoração.

 Outubro, 16 – 2008

6.  A loucura em muitos casos não consiste em  carecer de razão mas, em querer levar a razão que se tem até  as ultimas conseqüências. Um homem,  como li em um conto, que trata de classificar a humanidade de acordo aos mais variados critérios (negros e brancos, negros altos e brancos baixos e gordos casados) etc.. vai encontrando-se assim em uma necessidade de formular uma série infinita. Atendi a um homem que veio à Agencia onde trabalho para propor algo aparentemente muito sensato; reunir aos grandes chefes de estado, ao Papa, ao secretário geral da ONU, etc.  em  uma “Paella” universal em que se resolveriam  amigavelmente todos os problemas mundiais. Também aquele outro que veio para informar-nos que havia apresentado uma demanda judicial contra a União Soviética para que devolvesse à Espanha o ouro levado durante a República.  Sua argumentação desde o ponto de vista histórico e jurídico era inatacável  mas, levada à prática era um ato de demência. O que diferencia esse tipo de loucura da  razão não é tanto o caráter irracional da idéia incriminada mas, o que esta contém em sua própria impossibilidade. Os loucos desta natureza  são loucos porque   isolaram  completamente sua preocupação  do contexto que  o circunda e não levam em conta, assim, todos os elementos da situação ou como se diz, os imponderáveis de um problema. Daí  deduz-se que essa forma de loucura tenha tanta semelhança com a genialidade:  a de encontrar a solução de um problema passando por cima das dificuldades intermediarias.

 Outubro, 15 – 2008

5. Conhecer o corpo de uma mulher é uma tarefa tão lenta e agradável como aprender uma língua morta . Cada noite se soma um novo distrito a nosso prazer e uma nova palavra a nosso já quantizado vocabulário. Mas sempre restarão  mistérios por revelar. O corpo de uma mulher,  todo corpo humano, é por definição, infinito. Se começa por ter acesso à mão, esse apêndice utilitário, instrumento do corpo, sempre  despido, sempre disposto a entregar-se no importa a quem, que circula com toda sorte de objetos e  adquiriu a força de sociabilidade, um caráter quase impessoal  como se fosse o porteiro do palácio humano.  Mas, é o que primeiro se conhece:  cada dedo vai sendo individualizado, adquire um nome de família e logo cada unha, cada veia, cada ruga, cada imperceptível  sinal.  Alem disso não é só a mão  que conhece  a mão. Também os lábios conhecem a mão e então acrescentam-lhe  um sabor,  uma fragrância, uma consistência, uma temperatura, um grau de suavidade ou de aspereza, uma  comestibilidade. Existem mãos que se devoram como a asa de um pássaro; outras que se atracam na garganta como um eterno cadafalso. E o que dizer do braço, do ombro, do seio, da coxa, de… Apollinaire fala das Sete Portas do corpo de uma mulher. Detalhe arbitrário. O corpo de uma mulher não tem portas. É como o mar.

 Outubro, 13 – 2008

 4. Teoria do “erro inicial”:  em toda vida há um erro preliminar, aparentemente banal, como um ato de negligência, um falso raciocínio, como contrair um tique, uma mania  ou um vicio que desencadeia  outros erros. Caráter acumulativo deles. A  respeito:  imagem do trem que, por um erro do maquinista, toma o trilho errado. Mais justo seria dizer por um descuido do maquinista. Mais justo ainda seria colocar a culpa no passageiro que, afinal se equivoca de vagão. O certo é que para o passageiro  acabam-se as expectativas,  ninguém o espera na estação, é expulso do trem, não chega a seu destino.

 Outubro, 11 – 2008

 3. O sentimento da idade é relativo.  A gente é sempre  jovem ou velho com relação a alguém. Cesar Vallejo disse em um poema em prosa que por mais que passem os anos, nunca alcançará a idade de sua mãe, o que  além de tudo é certo. É compreensível que os homens de 40 ou 50 anos sigam sentindo-se jovens  pois, sabem que ainda  existem  homens de 70 ou 80. Somente quando se chega a esta idade é que começam a escassear os pontos de referencia para cima. Então, os octogenários se sentem poucos, sozinhos e velhos.  

  Outubro, 10 – 2008

 2. Vivemos em um mundo ambíguo, as palavras não significam nada, as idéias são cheques sem fundos, aos valores  lhes falta valor, as pessoas são impenetráveis, os fatos estão distorcidos  pelas contradições, a verdade é uma  quimera e a realidade um fenômeno tão difuso que é difícil distingui-la do sonho, da fantasia ou da alucinação. A dúvida que é o sinal da minha inteligência é também a tara mais execrável do meu caráter. Ela me fez ver e não ver, atuar e não atuar,  impediu em mim a formação de convicções duradouras,  matou até a paixão e me deu finalmente do mundo a imagem de um  redemoinho onde se afogam os fantasmas dos dias, sem deixar outra coisa que uns ciscos de  loucos acontecimentos  e  gesticulações sem causa nem finalidade.

Outubro, 9 – 2008

1. Quantos livros, meu Deus, e que pouco tempo e as vezes que pouca vontade de lê-los! Minha própria biblioteca onde antes, cada livro que ingressava era previamente lido e digerido, vai agora enchendo-se de livros parasitas, que chegam ali muitas vezes não se sabe como e que por um fenômeno, como um ima e aglutinação contribuem a cimentar a montanha do ilegível e entre estes livros, perdidos, os que eu mesmo escrevi. Não digo em cem anos, em dez, em vinte, que restara  de tudo isso! Talvez só os autores que vêm de muito tempo, a dúzia de clássicos que atravessam os séculos e até sem ser  muito lidos, mas vaidosos e robustos por uma espécie de impulso elementar ou de direito adquirido. Os livros de Camus, de Gide, que ha apenas duas décadas se liam com tanta paixão, que interesse tem agora, apesar de que foram escritos com tanto amor e tanto sofrimento? Porque dentro de cem anos se seguira lendo a Quevedo e não a Jean Paul Sartre? Porque a Francois Villon e não a Carlos Fuentes? Que coisa há que se colocar em uma obra para que dure? Dir-se-ia que a gloria literária é uma loteria e a perduração artística um enigma. E apesar disso se continua escrevendo, publicando, lendo, citando. Entrar a uma livraria é horrível e  paralisante para qualquer escritor,  é como a sala de espera do esquecimento: em suas prateleiras de madeira,  já os livros se dispõem a dormir seu sonho definitivo, muitas vezes antes de haver vivido. Que imperador   chinês foi o que destruiu o alfabeto e todas as  impressões da escritura? Não foi Erostrato o que incendiou a biblioteca de Alexandria? Quem sabe o que poderia  devolver nos o gosto pela leitura  seria a  destruição de tudo o que já foi escrito e o fato de se partir inocente, alegremente do ponto zero.

 

, 25 – 2008  November, 27 – 2008

December, 12 – 2008

December, 14 – 2008

December, 29 – 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 thoughts on “Literatura

  1. Pingback: Julio Ramon Ribeyro e eu « by the way…

  2. Regina! Parabéns pela iniciativa!

    Gostei do estilo desse escritor-observador do cotidiano!
    Mas onde vemos aqui no blog o nome da obra e informações sobre o autor?
    Abraços da LULU

  3. Valeu ANA!
    Perdi o primeiro comentário por não haver colocado o e-mail, mas eu dizia que identifiquei uma das crônicas que li com algumas descrições feitas pelo Albert Camus. Então, visitando a biografia do Julio Ramon descobri que este foi contemporâneo de Camus e que imigrou para a França no mesmo ano do desaparecimento de Camus, 1960. Ambos são premiados por seu trabalho literário, Camus com o prêmio Nobel, ambos são jornalistas e, talvez, pelos tsunamis de seu tempo ambos mergulharam nas águas do existencialismo.
    Muito bom! Parabéns pela escolha! FELIZ 2009! BOM TRABALHO!

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